TEATRO
11/05/07 - A ARTE DE TER RAZÃO

"Provocar raiva no adversário, pois tendo raiva, ele não estará em posição de julgar corretamente nem de perceber a própria vantagem. Para deixá-lo com raiva é preciso ser injusto com ele, de modo declarado, atormentando-o e comportando-se, em geral, com impudência."
Arthur Schopenhauer - estratagema 8
Criada a partir do processo colaborativo entre autor, diretor, atores, professor de filosofia e diretora de arte, a Arte de Ter Razão é uma peça inspirada no livro homônimo de Schopenhauer. Nesta obra póstuma o autor nos apresenta estratagemas lícitos e ilícitos, aos quais é possível recorrer para "obter" razão em uma disputa: para defendê-la quando estiver do nosso lado, e para conquistá-la quando estiver com o adversário.
O espetáculo se desenrola em um jogo cênico intenso, divertido e intrigante. Todas as personagens têm suas “verdades” e tentam a qualquer custo convencer que estão certas, mesmo quando sabem que estão erradas. “Por que todo mundo quer ter razão?”, diz uma das personagens. “O problema são os outros”, completa. Um é pouco, dois é bom, três atores no palco; Helena Varvaki, Thais Tedesco e Isaac Bernat. Os espectadores observam. Um ator diz ter uma afirmação muito importante a declarar. Um segundo, desconfiado, pergunta o que é. Aumenta a expectativa. O terceiro ator distraidamente lê um livro. A partir daí inicia-se o embate. Golpes de retórica são desavergonhadamente esgrimidos. Ataca-se o bom senso teatral. Os argumentos são embalados por muita vontade. É nítido aos olhos que o prazer está na disputa. Ao final, quem será capaz de julgar a verdade objetivamente? Quem será declarado vencedor? E vale lembrar que o vitorioso nem sempre está com a razão. O embate é onde mora a delícia para quem assiste.
Os atores, o autor e o diretor trabalharam sobre embates gerados a partir de improvisações, muitas delas nascidas de experiências pessoais. Esse espetáculo caminha em duas direções: uma orientada pela falácia racional que organiza “verdades” vindas dos estratagemas schopenhauerianos e uma outra, orientada pelos afetos nascidos da relação entre os atores em cena. Ganhadora do PRÊMIO MYRIAM MUNIZ, da Funarte/ Petrobrás, a peça Arte de Ter Razão tem o sabor de um livro de auto-ajuda brilhantemente organizado para os incréus ou, mais precisamente, aqueles que não se furtam em puxar a brasa para a própria sardinha.
A caixa preta da Casa da Gávea acaba ganhando dimensões inimagináveis já que nem os celulares dos espectadores e dos atores são desligados durante a apresentação.
A filosofia de Schopenhauer:
É a defesa das potências do corpo em detrimento da racionalidade. Talvez essa seja uma entre as diversas intenções do autor com a obra A ARTE DE TER RAZÃO. O paradoxo presente no título, que sugere uma razão que se dá por artífices, apresenta a retórica como ferramenta frágil para se chegar à “verdade”. A verdade, para o filósofo, se constitui pelos afetos, não pelas especulações racionais.
Ficha Técnica
Autor: Manoel Prazeres - Inspirada no livro de Arthur Schopenhauer Direção: Vitor Lemos Elenco: Helena Varvaki, Thais Tedesco e Isaac Bernat Professor de filosofia: Jorge Vasconcellos Direção de Arte: Leticia Ponzi Diretor Assistente: Flávio Souza Iluminação: Lara Cunha Fotos: Emmanuelle Bernard Pesquisadora: Patrícia Weiss Programação Visual: Flávio Luiz Direção de Produção: Gustavo Nunes
Escrito por Michelle às 21h02
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